14 de janeiro de 2018

S. João d'Arga - 28 de Agosto (por Ruben A.)

Há anos tinha lá uma promessa. Mais cedo, mais tarde, obrigava-me a meter pela serra acima de avanço até àqueles penhascos, irmãos do outro mundo onde pousou no encanto a capela de S. João. A festa em honra do santo de Arga é uma coisa única no país - e é assim por muitas e variadas razões.Este ano aventurei-me à minha promessa. Preparei o breviário. Um dia passado na montanha, noite alerta, regresso pela madrugada.Vai-se de automóvel até S. Lourenço da Montaria, depois à pata. Daí à capela, na arga de S. João, são bem umas três horas de subidas em caminho - é uma aventura paleolítica onde todos os minhotos vão levar o sal das promessas, ou o amor dos corações. Estão na Idade Média. Todos os anos o 28 de Agosto é corrido a carpir e a borgar naquelas alturas. Há missa procissão joelhão foguetório festeiros mordomos cidra barracas de comes comunhão vinho a rodos sermão em grande estilo. É uma romaria servida em pele e osso, sem ingredientes de V. Ex.ª ou fidalguias de Dom. Do Alto Minho vai tudo - saem de casa à noitinha para lá estarem de madrugada. Para muitos são nove horas a pé por mau caminho, se pensarmos que a romaria é bem popular na margem esquerda do Lima -- em Mazarefes, Deocriste, Subportela, Vila Franca, Barroselas e nos contrafortes da serra de Arga, na parte ao norte que vai de Caminha a Perdes de Coura. Pedra a seguir a pedra.À saída de S. Lourenço é uma subida enviesada entre pinheiros cabeça marrada aos pés, romeiros vestidos de animais, patas são quatro, sobe-se de gatas, voltar atrás é perder o equilíbrio. A cada aberta da Natureza chapa-se um clarão entre dois cocurutos de pinheiro; na sombra, uma mulher encostada ao pipote oferece cidra. Os sequiosos bebem. A cidra fervida, fresca, amacia as goelas emperradas. Sobe-se mais, ainda completamente embrulhado em pinheiros, raro se descortina um palmo à rota de estibordo ou bombordo, é tudo caruma, mato e uma fileira de formigas humana: para cima e para baixo, ritmo silencioso de cruzar padre-nosso de olhos magros, rezando mais ave-marias. O extraordinário é que está sempre gente a subir e a descer qualquer que seja a hora, desde o dia 28 pela madrugada do dia 29 já noite fora. Sobe-se sempre, parece uma humanidade transportada em bandos de funicular nacional. O momento está a chegar, fora dessas montanhas de pinheiro espesso começa o planalto de pedras, pedras desde o princípio do mundo, pedras poemas, sabendo que são pedras, pedras sim. A luz está cinzenta, se estivesse céu limpo era um esfolar de corpos correndo riachos de suor. Chega-se ao fim do planalto e vê-se a Ribeira Lima, o alto da cidade de Viana, descortina-se Âncora com o pinhal da Gelfa de sentinela alerta. É um espectáculo cinzento ao pé, quase verde nos longes. Começa agora nova subida por melhor caminho, a cabeça vai baixa, o pensamento desloca-se para S. João de Arga - as formigas sobem e descem em loucura penitente -, o nosso rancho aumenta-se de uma Tia de S. Salvador da Torre e de três pequenas do Orbacém acompanhadas do maior patusco das redondezas. Sobe-se, aqui uma fonte. De água ficamos satisfeitos como diz a boa da Tia, que traz promessa anual ao santo - e descalça é que é - mostrar ao Santo que se tem um respeito descalçado, nada de familiaridades. O Santo é bom para os aleijões, pernas, cabeças, costelas partidas de bichos e de homens - é Santo grande de efeitos milagrosos osteológicos. Melhor que todos os endireitas da região e mais sábio de que o da Esperança. Cá vamos subindo, sempre subindo, subindo de cabeça baixa olhando para esta pré-história tal qual. Chegamos finalmente ao alto depois de lutas e contracurvas perigosas sem resguardos. Todo o trânsito se respeita, é um trânsito religioso, penitente, de boa promessa. Cheiro o ar, abro mais as narinas viradas ao vento predominante, está leve e sem mais nada, é um ar cheio de ar onde o puro se encontra com o mais puro, vejo transparências de beliscaduras a respirarem-se melhor. O ar está o que é, e a montanha agasalha-se de mantos diáfanos de ar. Tudo é pureza transparente, pedras de musgo, pedras limpas, pedras cor de sardanisca.Passam formigas de cestos brancos à cabeça - merendas de frango e cabrito. Sobe-se mais, cá vai o nosso rancho acariciado pelo transporte colectivo do 29. É o 29 quem leva parte da carga. É um génio o 29. Coveiro enterrador da Junta de Freguesia de Carreço com falta de mortos lança mão dos vivos. Faz tudo, é um destes seres privilegiados como só existem em Portugal. Tem duas vacas, quatro borregas um cão e três gatos para comerem os ratos que se alimentam no curral. Trabalha como mouro desde a noite antes do dia até à noite depois do dia. Faz tudo, deita a mão a tudo, atende às crias, cuida das vacas paridas, oferece assistência. Quando tira o sargaço do mar, ninguém lhe leva a palma. No entanto, dizem os entendidos, a enterrar é que ele é mestre, faz com uma arte e rapidez que a freguesia antes de orar os responsos já está com a alma encomendada para o próximo. Venha outro morto se quer aproveitar, ele está com as mãos na massa. É das melhores almas que se habitam no Norte de Portugal. Não conheço ninguém que trabalha a enxada, o redenho e a pá dos mortos com tanta perícia, dureza e seriedade. Pedra acarinhando pedra.Puxa mais para cima! Já levamos duas horas bem andadas de subida íngreme. Dá-me a impressão de que tenho o sangue todo nos pés. - À volta de nós a serra de rochas, pedras, pedras a dormitar, não chegam a senti a comichão que lhe fazem estas formigas escarafunchosas. Passam mais ranchos - estes minhotos são como gatos de sete foles. Trabalham sempre, quase não dormem no Verão e borgueiam quando os santos fazem anos. Vão a dançar e a cantar como quem chupa caramelo. Eu, de língua de fora, pareço um perdigueiro depois de ter deixado as perdizes voar para outra fraga, lá nos fundos. Ainda se sobe mais, este caminho não é para funcionários públicos nem para comerciantes estabelecidos em casas de bancos ou de latoaria, menos para ministros - é um caminho de poetas, caminhos de pedras. Como esta gente é poeta! - Há uma alegria própria no cantar, aberta, convidativa ao amor, granito polido pelos versos. Continua tudo cinzento, excepto as formigas e uns verdes humidados por nova fonte. Pedregulhos ancestrais escondem o resto das formigas e outros mistérios mais íntimos de promessa. A Tia conta a tragédia a toda a gente, transporta tragédia de arromba - e às carradas. Tinha três filhos e já não tem nenhum - fiquei com o gato, e vendo sardinha, pronto. A vida resumira-se para ela. Acabou. Cá vai connosco. Há uma mulher que passa e lhe pergunta se eu sou filho dela - tem a sua cara, isso é que é - e ela de lágrimas nos olhos responde: - Os meus já lá estão - eu não conheço este filho. « Olhe que ele tem as suas sobrancelhas! E a penca é por uma peninha».«Tatá. Adeus cá vamos, o santo está à nossa espera e eu assim não me arrumo». Outro planalto, outra subida mais estreita, a serra, mais aberto o céu e a língua mais saída, mais baixa. Ali não se depara com dez reis de coisa: só o isolamento. Andamos, caminhamos sempre em frente de batida rápida no córrego semidiabo, semideus. Tudo no mesmo ritmo, tudo a palmear. Chegámos ao alto, alto que fica encostado ao céu - céu e as narinas abriram-se entusiasmadas pelo bufar. Tudo virgem. Agora, daqui ao S. João, é uma boa meia hora a descer e lá daquele fundo já se vê a capela. Assim foi, passados cinco ou dez minutos, pela garganta do desfiladeiro, à direita, a meia altura, João de Arga estava em festa. As primeiras árvores da montanha -- oliveiras, carvalhos de uns quinhentos anos e uma grande muralha que faz pensar que a capela deve estar entremuros. À nossa volta mais formigas, no ar o fumo dos petardos a anunciarem a saída da procissão. Pedras só pedras.A genuína promessa é descer de joelhos, desde esta primeira rocha de onde se vê a capela, até lá baixo ao altar onde está S. João. São oito a dez horas de joelhos em sangue. Passamos por várias promessas em funda penitência, de pernas e joelhos massacrados. É de meter medo o poder de sacrifício da fé. Se houvesse caminho aberto, ainda era fácil, mas assim, aos pequenos saltos de joelhos, é já do outro mundo. Avançamos de facilidade, a descida sobre S. João é bela com o regato a espelhar e o rio Minho de Santa Tecla e tudo mais ao norte. É supino. Meto a língua para dentro. Começo a dar ao rabo. Contente. A minha promessa estava cumprida, era só entrar na capela, agradecer a S. João.Pusemos arraial na encosta, pedra ao pé de pedra. Lá fomos entre o formigueiro. A capela é mesmo viva pelas coisas de pedra colorida e pela situação escondida do altar-mor. Tem uma estátua do Santo Miguel a cutilar o Senhor Diabo que é uma maravilha. Todos entre Lima e Minho têm respeito ao Senhor Diabo, e os romeiros levam esmola ao Senhor Diabo para ele estar quietinho. Nada de obras do Diabo! O Senhor Diabo merece toda a consideração. Deitei lá umas cinco coroas para não ter nada com as iras e más disposições do Senhor Diabo.Por cima da entrada da capela-mor há um baixo-relevo policromado representando o baptismo de S. João. De maravilha a igreja está em festa com duas bandas de música, os Atrevidos de Freamunde e a Banda Marcial do Couto da Labrega. À volta, um arame para separar os penitentes dos que já cumpriram as promessas; 379 voltas de joelhos à capela, num murmurar baixo as rezas quentes do rosário, já a contas no último terço. O padre fala, a banda toca, uns dançam, outros bebem, outros comem, outros rezam, outros dormem, outros gritam - é um quadro estranhíssimo quase nas raias do brueghelesco. Sinto fome, uma fome viva com cheiros de salpicão a entrar nas goelas. Abanco na ravina, inclino-me a baixa o olhar sobre o rio e no espreito de uma luz quase cheia, devoro a carcaça de centeio. Rasgo a dentuça ao longo das cavidades do chouriço da Riba de Âncora, e enterro o gasganete num quartilho de branco que me chama a confessar os pecados. Os da carne são todos iguais, os cá da cachimónia é que variam de temperamento para temperamento. O que é preciso é ser-se grande perante Deus, dizia na velha capela das Amoreiras um padre chato e resmungão que ao mundo deixou esta bela frase; - Grande perante Deus! -, neste momento aproximo-me divinamente. Atrombo mais chego à verdade da gula e paro, sinto vaidades, devaneios a pairar ao encontro de outrora. Como se mexem os meus petardos alucinados pela crueldade do sofrimento espiritual. Não há dessas coisas em nossa terra, mais vinho, menos comida, mais pedras, é o que há juntamente com umas rezas bem a propósito para os Santos milagreiros. O que é preciso é ser-se grande perante Deus!O dia encolhe-se, limpa-se a noite. As estrelas pirilampam-se depois do luar, as fogueiras do arraial significam mistério. Devia ser assim no tempo dos santos medievais - estamos sentados a admirar a bacanal, na outra ravina da costa, mais aplainada, o espectáculo é de único. Ranchos por toda a parte a cantarem, a dançarem ao som da concertina do conjunto de tocadores. Um alto-falante vomita danças espaçadas, lembra estúpidos de civilização. As bandas tocam mais forte - bebe-se agora um tinto magnífico e o fogo sobre no alto colorindo uma natureza parda de rocha. O panorama tem majestade. O povo ali não se abana de artimanhas, é um sim de fé e de borga.Em S. João d'Arga não existem casas - há a capela, e à volta o quartel, nome pelo qual se chama a uma barraca onde dorme a malta bem empilhada. Mas ninguém dorme - não se pode dormir, a noite e as fogueiras altas de cada ninho de pedras raro possibilitam sono - dançam os ranchos, bebem como sequiosos do Nordeste brasileiro, tudo bebe mais vinho e tudo come pela noite fora. Ninguém para - vejo um embalar puro, sagrado, da gente que espera a primeira missa às cinco da manhã. Depois da comunhão tudo parte à debandada - formam-se novamente os ranchos e ao nascer do sol o formigueiro movimenta-se de partida. Dá-se lugar a outros que vêm passar o dia 29 junto ao santo. Não durmo, olho para aquele mundo como quem mira uma reserva humana em papel selado. É tosco, primitivo, frascário, mas é puro, é português.
A., Ruben "Páginas V", Assírio e Alvim, Lisboa, 2000, 240pp.

4 de novembro de 2013

Povo que lavas no rio


Reúne-se neste livro diversos apontamentos da autoria de Pedro Homem de Mello, sobre o quotidiano do povo que abnegadamente desejou existir para além do anonimato, moldado pelas suas crenças, tradições e medos.

Curiosas são as páginas em que Pedro Homem de Mello (d)escreve vivências da Serra de Arga: "Vozes de Arga" e "S. João d'Arga". Entre a tragédia e a folia, entre o religioso e a malícia jocosa, Homem de Mello, revela-nos argumentos que fazem da "montanha santa", um território onde nos podemos deixar transcender, enleados no mistério do contraste da paisagem ou do oculto que povoa cada uma das pequenas aldeias de Arga: "Quando a noite desce, negra e pesada, sobre a serra de Arga, é que a alma do seu povo sobe".

17 de setembro de 2007

Cancioneiro da Serra d'Arga, por Artur R. Coutinho (4ª edição, 2007)



Esta é a 4ª edição do livro, editado pela primeira vez em 1981, da autoria de Artur Rodrigues Coutinho.

Este novo exemplar, fac-smilado da 3ª edição, visa contribuir para o apoio das obras sociais da Paróquia de N.ª S.ª de Fátima (Viana do Castelo), nomeadamente a edificação da nova igreja e centro social.

Sem dúvida, mais do que excelentes e valorosos motivos para adquirir este livro, que se encontra à venda no cartório desta paróquia vianense ou em qualquer livraria regional. O preço é de €10. Para mais informações contactar o telefone 258 823029.

Eis algumas quadras soltas da obra, completo repositório da etnografia da Serra d'Arga:

A água daquela serra
Por copos de vidro desce;
Nem a água mata a sede
Nem o meu amor me esquece.

Abaixo da Serra d'Arga
Onde fica minha aldeia,
Na linda terra de Dem
Onde o meu amor passeia.

Abaixa-te Alto do Tapado,
Que eu quero ver Castanheira,
Quero ver o meu amor
Lá nos campos da Lapeira.


COUTINHO, Artur "Cancioneiro da Serra d'Arga", Viana do Castelo, 2007, 253pp.

30 de abril de 2007

"A Lenda de S. João", por Artur R. Coutinho



Diziam que S. João era um local de passagem para Santiago de Compostela e, ao mesmo tempo, ponto de paragem e descanso de todos os outros que por lá passavam, como por exemplo carreteiros.

Verificava-se, então, que, quando os carreteiros passavam em frente à porta lateral da Capela (lado direito), os animais estacavam e não passavam dali para a frente. Então, por ordem de Frei Bartolomeu dos Mártires, mandaram fechar a pedra a referida porta, para aquilo que não se verificasse mais, assim como o desvio do caminho que estava junto a esta.

A partir daí, a porta só foi aberta novamente há cerca de 20 anos.


COUTINHO, Artur Rodrigues, "Mosaicos da Serra D'Arga", Viana do Castelo, 1997. p. 139.

13 de fevereiro de 2007

"A Lenda da Serra de Arga", por António Manuel Couto Viana


Era uma vez um rei chamado Evígio, forte e severo, que ocupava o trono visigótico da Península Ibérica, parte do qual se estendia pelas terras férteis que, séculos mais tarde, iriam constituir Portugal.

Evígio tinha uma filha única, de nome Eulália, muito bela, luz dos seus olhos, prometida por ele em, casamento ao valente guerreiro Remismundo, que desejava como seu sucessor. Mas Eulália amava outro.

Amava o jovem Egica, de nobre sangue real, também ele valoroso, é certo, mas cujos amores com Eulália o rei Evígio contrariava, preso ao compromisso tomado com Remismundo. Porque o coração se lhe negasse a aceitar a decisão paterna, Eulália resolveu fugir com Egica para longe do seu reino, onde encontrassem, juntos, a felicidade desejada.

E, numa certa noite escura, ambos, escapando à vigilância de servos e soldados, cavalgaram livres, para outros lugares mais amáveis.

Ao saber da fuga dos jovens namorados, logo o rei enviou um poderoso exército em sua perseguição. Conscientes dos perigos que corriam, Eulália e Egica procuraram ocultar-se o melhor e o mais breve possível da ira de Evígio.

E, debaixo de uma violenta tempestade, chegaram à vista de uma alta serra, chamada Medúlio, próximo da Galiza, onde fora construído o Mosteiro Máximo, conhecido de Egica, pois ali residia um velho amigo seu, Frei Gondemaro, decerto pronto a acolher, com satisfação e carinho, o par de fugitivos.

Vencendo as fúrias do vento rude e da chuva insistente, não tardaram a bater às portas do Mosteiro e a cingir os braços generosos do monge, que prontamente lhes ofereceu uma mesa abundante e o repouso dos leitos.

A manhã seguinte, trazendo consigo um Sol radioso, desvendou, aos olhos da princesa e do cavaleiro, panorama deslumbrante de campos semeados, densos e verdes arvoredos, águas rumorejantes de riachos, rebanhos brancos de ovelhas, o mugido melancólico dos bois, um pulsar de vida selvagem entre as brenhas, uma festa de pássaros nos ares.

E Eulália, encantada com o que via, exclamou:
- Porquê, chamar Medúlio ao esplendor e prosperidade desta serra, e não Agro como merece?

Respondeu-lhe o irmão Gondemaro:
- Razão tendes. Pois toda esta riqueza se deve ao trabalho agrícola, de Sol a Sol, dos nossos bons monges que a cultivam sem fadiga e com muito amor.

Rogou-lhe, então, o par de enamorado que, nesse dia magnífico, Gondemaro o casasse, antes que os homens de Evígio o descobrissem e levassem prisioneiro.

Fez-lhe o frade a vontade, no segredo do altar florido, ante a benção da cruz sagrada. Depois, Eulália e Egica partiram para novo reino, ainda mais distante do poder do rei ofendido.

Mas Eulália, ainda junto do seu amado, sofria de saudade do pai e da sua pátria, e levava os dias em lágrimas.

Até que chegou, por fim, ao castelo onde o casal morava, o velho monge do Mosteiro Máximo. Vinha exausto da viagem penosa, tão demorada e tão cheia de perigos.

Mas trazia boas notícias!

O rei Evígio, também saudoso da filha querida, estava pronto a perdoar a desobediência e a fuga, se Eulália lhe desse um neto varão, para o perdão do rei e o regresso feliz dos exilados.
Porém, antes de alcançarem o palácio de Evígio, perante a estima e o respeito de todos, quiseram voltar àquela altiva serra, onde haviam casado, chamada, agora, Serra de Arga, pois o povo, na sua ignorância, havia deturpado para Arga a palavra Agro, raiz da palavra Agricultura, com que Eulália justamente apelidara.

E assim a Serra ficou chamada até aos nossos dias, com a beleza da sua paisagem doce e agreste, cada vez mais fecunda e arroteada, com o bulício da sua fauna e pujança da sua flora, recebendo os louvores entusiásticos de quem lhe sobe aos altos e lhe desce aos vales, na devoção das romarias, escutando o balir manso dos rebanhos, o reboar dos sinos, o estrondo dos foguetes na lisura dos céus.

VIANA, António Manuel Couto "Lendas do Vale do Lima", (2002) Edição Valima - Associação de Municípios do Vale do Lima, Ponte de Lima. pp.82.
Ilustração - António Vaz Pereira

8 de janeiro de 2007

"Serra de Arga - as origens dos nomes", por Batalha Gouveia

No seu interessante ensaio de características esotéricas intitulado OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE, o seu autor, Vítor Mendanha, atribui ao orónimo Arga o sentido de "sol". Trata-se de uma inexactidão etimológica, uma vez que o nome Arga diz respeito à lua e não ao sol, como as linhas a seguir irão demonstrar.

Começo por dizer que a toponímia da região que rodeia a serra de Arga evidencia a existência de um antigo culto à lua, como é disso exemplo o nome da graciosa vila de Caminha cuja etimologia já foi objecto de uma acesa polémica travada entre o Dr. Luís Figueiredo da Guerra e o Prof. José Leite de Vasconcelos.

Para o primeiro, o topónimo Caminha teve origem na expressão genitiva latina Caput Minii significativa de "Cabeça do Minho". Para o segundo, esta hipotética origem não encontra justificação sob o ponto de vista filológico. Interessado por estes temas, releve-se-me a imodéstia de apontar para o étimo de Caminha uma outra origem. O litoral ocidental do burgo caminhense descreve uma pronunciada curva que está na origem do nome Camminnia que os celtiberos ali estabelecidos lhe deram. No nome Camminnia estão aglutinados os itens vocabulares celtas cam e minn aditados do sufixo ibero-grego ia, os quais passo a examinar per si.

Para designar a curva o dialecto celta falado pelos irlandeses e escoceses chamado gaélico, empregava a palavra cam(1). Uma povoação fundada numa das muitas curvas do rio Cam está na origem do topónimo celta Camboritum (actual Cambridge) significativo de "ponte sobre o Cam". Com o gaélico cam formaram-se também os topónimos Camborne e Camburne, ambos significativos de "Curva da Colina".

O gaélico minn era um dos nomes da cabra, como se reconhece na frase gaélica "dá dheag minn", à letra, "duas boas cabras". Quanto a ia, trata-se do sufixo ibero-grego que se traduz por "terra", "sítio", "lugar" ou "local", como estes nomes geográficos confirmam: Lusitânia, Mauritânia, Spania (Espanha), etc..

No tempo em que certos animais foram elevados à dignidade de sósias dos astros, a cabra foi escolhida para representar a lua. Segundo o mito do nascimento de Zeus numa gruta da ilha de Creta, foi com leite da cabra Amalteia que o supremo deus do panteão grego se alimentou. Quando Almateia morreu, Zeus fez da sua pele uma capa que tinha a singular particularidade de o tornar invisível. Daí o título de Zeus da Égide (pele de cabra) pelo qual passou a ser apelidado.

De harmonia com o ora exposto, o topónimo celtibérico Camminnia, donde o actual Caminha, envolvia ao tempo da sua génese vocabular o sentido de "Lugar da Curva da Cabra", cabra esta aqui entendida como sendo a lua. Com o advento do Cristianismo, a idolátrica cabrinha lunar "assumiu" a natureza humana, daí advindo a escolha do hierónimo Nossa Senhora da Assunção para padroeira de Caminha.

Passo agora a debruçar-me sobre sobre o orónimo Arga. É historicamente conhecida a presença de colonos gregos na área minhota, ali apelidados de Grávios por serem originários da cidade grega de Graviá, na ilha de Eubeia. Os dórios, uma tribo grega, davam o nome de argas (em ático e jónico argos e arges) a tudo quanto representasse aspecto branco ou claro. Ora como a luz reflectida pela lua é cromaticamente clara ou branca, o argas dórico passou a soar "arga" entre nós, e a revestir o sentido de lua. Logo, o orónimo Serra de Arga pode traduzir-se por Serra da Lua ou, em termos mitológicos, Serra da Cabra.

(1) Dwelly, Gaellic-English Dictionary

Nota: o presente artigo foi publicado no jornal "A Aurora do Lima", em 19/02/1999, p.2. A fotografia, "Luar de S. João d'Arga", de António Viana da Cunha, foi acrescentada posteriormente ao artigo pelo nosso blogue.